Thaisa Galvão

8 de agosto de 2018 às 10:14

Folha de S. Paulo mostra os ‘caciques arranhados’ das eleições do RN [2] Comentários | Deixe seu comentário.

Da Folha de S. Paulo:

 

ELEIÇÕES 2018

‘Lula livre’ e caciques arranhados por investigações marcam eleição no RN

Lava Jato desgastou lideranças no estado, onde corrida ao governo é liderada por senadora do PT

 

Joelmir Tavares

NATAL

Até os ventos mais fortes que amenizam o calor na capital do Rio Grande do Norte nesta época do ano sabem que poucas famílias dominam a política no estado, que sobrenomes se revezam a cada eleição e que velhos conhecidos pulam de cargo em cargo.

Mas os ventos nesta eleição estão soprando em outras direções. Atingidas pela Lava Jato, lideranças locais se viram fragilizadas. A reorganização de forças colocou à frente das pesquisas para o governo estadual uma candidata do PT, algo inédito na história recente.

 

Empunhando a bandeira “Lula livre”, a senadora Fátima Bezerra rivaliza com o atual governador, Robinson Faria (PSD), e com Carlos Eduardo (PDT), que é da oligarquia Alves, mas fez carreira independente e já chegou a ficar rompido com os parentes.

Adversários dela cobram propostas para o estado e a acusam de fiar sua campanha só na defesa do ex-presidente.

“Ela tem pesquisa mostrando que o Lula vence aqui, então é um marketing”, diz Carlos Eduardo, que é primo do senador Garibaldi Alves e do ex-ministro e ex-presidente da Câmara dos Deputados Henrique Eduardo Alves (ambos do MDB e seus apoiadores).

“Respondo a isso dizendo que nossa candidatura é a que já avançou no debate programático”, afirma Fátima.

O atual governador, que não atendeu aos pedidos de entrevista da Folha, está desgastado pela crise financeira do estado, com salários atrasados –a maior parte dos servidores não recebeu o 13º de 2017.

O reequilíbrio das contas públicas é promessa de campanha dos outros candidatos.

“O estado está sem capacidade nenhuma de investimento”, diz Fátima, de terninho vermelho, durante entrevista na sede estadual do PCdoB, partido de seu vice.

 

A senadora subiu no palanque de Faria em 2014, mas se retirou do governo em 2015, em meio ao processo de impeachment de Dilma Rousseff.

Entrou para o anedotário político local o episódio em que o governador se negou a atender uma ligação de Lula quando Dilma estava na mira.

Além de se afastar de Fátima, Faria está rompido com seu vice, Fábio Dantas (PSB), que ensaiou disputar a sucessão estadual. Sem o apoio de sua sigla, Dantas desistiu, mas manteve a temperatura alta.

Ao anunciar a retirada da candidatura, disse que grande parte da classe política ao seu redor “luta para perpetuar as velhas práticas, o tráfico de influência, o uso desmascarado da máquina pública”.

Além dos Alves, os clãs Maia, Rosado e Faria disputam os espaços de poder no estado há pelo menos cinco décadas. É comum que lideranças dessas famílias articulem também a eleição de filhos e cônjuges.

Outra mudança na atmosfera potiguar em 2018 veio com as investigações da Polícia Federal e do Ministério Público.

 

A começar pelo governador, denunciado no ano passado pela Procuradoria-Geral da República sob suspeita de obstrução de Justiça em uma investigação sobre fraudes na Assembleia Legislativa.

Deputado de 1987 a 2010, ele é alvo de apuração sobre funcionários fantasmas na Casa, mas nega envolvimento.

A Lava Jato, em diferentes graus, pegou políticos como Garibaldi Alves, que tenta se reeleger senador, e Fátima Bezerra. Citados em delações sob suspeita de recebimento ilegal de doações, os dois contestam os relatos. Garibaldi foi denunciado no STF (Supremo Tribunal Federal).

Outro afetado, o senador Agripino Maia (DEM) – com mandato ininterrupto desde 1995— desistiu de concorrer à reeleição. Ele diz que o recuo não tem a ver com o fato de em junho ter virado réu no STF pela segunda vez, ligado a negociações de propina.

“Estou absolutamente tranquilo”, afirma o senador, que tentará ser deputado federal.

Cacique do MDB no estado, Henrique Alves foi o mais afetado pela onda de escândalos.

Implicado por delatores da Odebrecht, ele ficou na prisão por 12 meses (o último deles na domiciliar) por suspeita de envolvimento em desvios nas obras da Arena das Dunas, o estádio da Copa em Natal.

Libertado em julho, se dedica à sua defesa e descarta voltar agora à política.

Da porta do Palácio de Despachos se vê a grandiosa arena, que fica no mesmo terreno do centro administrativo estadual. No estacionamento, um circo está montado.

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