Holiday

Thaisa Galvão

10 de fevereiro de 2019 às 13:48

Após 50 anos de cassações pela ditadura, “a luta continua” com os cassados pela democracia [1] Comentários | Deixe seu comentário.

Provocado por uma lembrança vinda de Mossoró, o ex-deputado Henrique Alves resolveu voltar às páginas de sua Tribuna do Norte, assinando um artigo publicado neste domingo.

Um relato que marcou seus discursos durante toda a sua carreira política, encerrada com uma decisão judicial que o levou à prisão em junho de 2017.

Quem ouviu pelo menos dois discursos de Henrique, sabe que ele repetia, a cada um, o que ficou marcado para ele e para sua família: a cassação do pai Aluízio Alves e dos tios Agnelo e Garibaldi Alves.

Abaixo a íntegra do artigo:

Quinta-feira passada, 07-02-2019, 50 anos de um dia inesquecível na minha vida. E como se adivinhasse … o amigo Elviro Rebouças, de Mossoró, me despertou a emoção com este depoimento: “HENRIQUE, sem querer remoer assunto tão abominável e, reiterada e implacavelmente rechaçado pelo povo potiguar, mas fazendo justiça ao grande ALUÍZIO ALVES, hoje, 7 de fevereiro de 2019, 50 anos exatos da tentativa designada – e em vão – de distanciá-lo do amor da sua ” gentinha”. Ele ainda vive, e continua, na ESPERANÇA E NA FÉ , sendo “o melhor dos feiticeiros !”. E tinha que ser de Mossoró, cidade tão no coração, na luta e na história de meu pai.

A Praça do Codó, a vigília de 72 horas – onde menino estreei em campanha política. As senadoras D. Ozelita, Rose Cantídio, Edite Souto, Maria Ester. Obrigado, Elviro.

Mas, 50 anos daquele 07-02-69. Estávamos na casa do sempre José Gobat porque todo dia nossos radicais adversários anunciavam que a cassação de Aluízio sairia na Voz do Brasil. Noites passavam e o anunciado “previamente” não saía. Neste fatídico dia 07, saiu, Aluízio Alves cassado pela Ditadura Militar.

O prenúncio que temíamos… um grupo pequeno, mas barulhento, bebia na Confeitaria Atheneu, que conseguíamos avistar. Figuras conhecidas, lembro bem, e depois a comemoração que fizeram – foguetões e ódio juntos.

O que não conseguiam no voto, nas ruas e urnas, nos corações e nos ideais, conseguiram com o General de plantão na Presidência da República.

Cassaram o maior líder político e popular do Rio Grande do Norte. Seu Governo, suas realizações; Energia de Paulo Afonso, Cidade da Esperança, Telern, educador Paulo Freire em Angicos, Hotel dos Reis Magos… Sua voz enrouquecida, mas forte; um novo Rio Grande do Norte que construiu; uma relação de amor com os mais pobres e humildes, a sua querida “gentinha”.

Que mal fazia àquelas pessoas as passeatas, as vigílias, as bandeiras e galhos verdes, o trem da esperança, a multidão a pé para Macaíba, a cruz humana que se formava na Praça Gentil Ferreira. Ou será por que era o Cigano Feiticeiro?

Parecia um pesadelo. Meu pai no Rio, em casa, com mamãe, a receber Magalhães Pinto, que lhe comunicaria, solidário na imensa dor e brutal injustiça.

A fé em Deus sempre nos deu a milagrosa serenidade. O Brasil que vivíamos sem ordem e progresso.

E não parou aí. Cassar Aluízio, deixando Agnelo e Garibaldi livres? Cassaram também seus dois irmãos. Destruída uma família política, do voto popular, da “esperança” em milhares de corações norte-rio-grandenses.

Aí, a força do destino, anos depois absolvidos em seus julgamentos por ideais e atitudes, mas os foguetões já haviam sido soltados, os ódios destilados. Os sonhos violentados.

Eis que dois meninos, eu com 21 anos e Garibaldi com 23, reerguemos a bandeira verde arriada pela força. Fomos os deputados federal e estadual mais votados, proporcionalmente, do país. O RN soltou a sua voz! Dando-nos coragem e com ela hasteamos essa bandeira verde por tantos caminhos – antes inimagináveis – do Rio Grande do Norte, do Nordeste e do Brasil.

A luta mais importante, mais difícil, mais emocionante, mais arriscada, mais perseguida – tempos difíceis! – a luta pela democracia e pela liberdade. Em cada canto e recanto deste Estado tem a marca desta resistência de Henrique e Garibaldi, ao lado de muitos e muitos companheiros.

Esses 50 anos se passaram. Aos que hoje vivem e apregoam os direitos à cidadania, à liberdade, à democracia, à justiça, não pedimos muito.

Apenas o respeito ao registro desta história. Com todas as violências e injustiças, também desse Brasil que vivemos – sei tanto – o aprendizado: nosso Deus, da misericórdia e da paz, perdoai aqueles que não sabiam o que faziam. E iluminai, homens e mulheres, onde quer que estejam para serem do bem, fazer o bem e guardar o amor e o respeito em seus corações. Meu pai, Agnelo e Garibaldi, em nome de vocês, a luta continua!

***

O pequeno detalhe que fugiu do óbvio e chamou atenção está no final do texto:

Henrique aposta na continuidade dos que que foram cassados pela ditadura.

Mas vale lembrar que os sucessores das vítimas da ditadura, também foram cassados, só que pela democracia do voto.

Henrique, sucessor de Aluízio, perdeu a eleição para governador em 2014.

No pleito seguinte, em 2018, Carlos Eduardo Alves, filho de Agnelo, também foi derrotado para o Governo.

Mesma eleição em que Garibaldi Filho, herdeiro de Garibaldi Alves, não se reelegeu para o Senado.

Sobreviveram dois herdeiros, já da terceira geração: o deputado federal Walter Alves, reeleito no ano passado, e Felipe Alves, que é vereador de Natal e deverá buscar reeleição no próximo ano.

Resta saber se Henrique, que não tem herdeiro de sangue na política, vai ultrapassar os processos aos quais responde e ser candidato nas próximas eleições…

Se Carlos Eduardo vai ultrapassar a decisão popular de tirar da política as oligarquias familiares, ou se vai tentar a continuidade através da mulher Andreia Alves, já que a filha maior, Maria Eduarda Alves, optou pelo Direito e mora com a mãe Fernanda Freire no Rio de Janeiro.

E se Garibaldi voltará a disputar cargo eletivo ou vai permanecer apoiando o filho Walter e o sobrinho Felipe.

Segundo Henrique, a luta continua.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*