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16 de dezembro de 2007 às 11:51

Folha aponta nepotismo como marca da família Alves

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A Folha de S. Paulo mandou um repórter a Natal. Eubens Valente voltou a São Paulo com histórias e declarações de potiguares, e a constatação: que a família do presidente do Senado tem como característica, o nepotismo.
Leia a íntegra da reportagem:

Nepotismo é marca da família de senador
Apelidados de "bacurau" por ocultarem nomeação de apadrinhados, o clã se reveza com os "araras" no governo do RN desde os anos 60
Pai do presidente do Senado diz que agressões da política nordestina conduzem as famílias à "solidariedade; fomos sempre muito unidos"

RUBENS VALENTE
ENVIADO ESPECIAL A NATAL

Bacurau é uma ave de hábitos noturnos e também o apelido de um trem que, nos anos 60, partia de Natal (RN) só de madrugada. Diz o folclore que o ex-ministro do governo Sarney (1985-1990) Aluízio Alves, cacique da política potiguar e chefe do clã que tem presença ativa no Estado desde os anos 60, quando governava o Estado costumava distribuir os diários oficiais que trouxessem muitas nomeações de apadrinhados e parentes em edições limitadas e no final da noite. Assim, poucas pessoas conseguiam vê-los -como o trem da madrugada.
Os adversários logo carimbaram Aluízio, morto aos 84 anos em 2005, com o pejorativo "bacurau", associado a nepotismo e empreguismo. O clã apropriou-se do apelido e hoje todos se orgulham dele.
O novo presidente do Senado, Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN), por exemplo, é um bacurau de alta plumagem. Uma marca negativa de suas duas administrações no Rio Grande do Norte (1995-2002) -além de ter enterrado duas CPIs e inúmeras denúncias de irregularidades que envolvem secretários de Estado- é o uso de cargos públicos para acomodar parentes e agregados.
Ao assumir o governo, em 1995, Garibaldi colocou o irmão, Paulo, na secretaria de Trabalho e Ação Social (depois, na Casa Civil), o pai, na presidência da Junta Comercial, o sobrinho, Sérgio, como oficial de gabinete da Governadoria, a irmã, Maria Auxiliadora, na presidência de uma fundação. A agência publicitária que venceu a licitação do governo, a RAF, pertencia a um primo.
Na segunda gestão, o governador emplacou o irmão como conselheiro do Tribunal de Contas do Estado. Um conselheiro se aposentou "voluntariamente" e em troca foi empossado secretário de Agricultura de Garibaldi. Hoje Paulo é o presidente do TCE. Na quinta, o tribunal que tem a tarefa de julgar contas dos administradores públicos concedeu moção de congratulações a Garibaldi pela eleição no Senado.

Trajetória
É assim desde o começo da longa, acidentada e muitas vezes vitoriosa trajetória da família Alves, que já teve ministro, governadores, senadores, prefeitos, deputados federais e estaduais. O próprio Garibaldi começou a vida política em 1966 na gestão do tio, Agnelo Alves, então prefeito de Natal e hoje prefeito de Parnamirim. Com apenas 19 anos, Garibaldi foi nomeado chefe da Casa Civil.
Nenhum Alves esconde que a atuação de parentes em bloco é um método de trabalho. "A política, sobretudo a nordestina, é muito de agressões. Isso conduz as famílias a uma certa solidariedade. Fomos sempre muito unidos", conta Garibaldi Alves, 84, pai do presidente do Senado e irmão de Aluízio Alves.
Garibaldi, pai, teve um irmão assassinado por causa de brigas políticas. Expedito, então prefeito da cidade de origem do clã, Angicos (RN), foi morto a tiros por um adversário.
Não raro, as brigas entre os militantes, até os anos 80, também acabavam em brigas. Principalmente contra os "araras", apelido do outro clã que se reveza com os Alves no poder, a família Maia. A atual governadora, Wilma de Faria (PSB), foi secretária na gestão do atual senador José Agripino Maia (DEM) nos anos 80 e foi casada com o ex-deputado Lavoisier Maia. Os clãs se alternam no governo do Estado desde, pelo menos, os anos 60, com curtos intervalos de ausência.
"Todas as famílias que optam por nossa profissão [política] trabalham juntas. O líder Aluízio serviu de espelho para toda a nossa família", disse Luiz Porpino, 65, secretário particular de Aluízio por mais de 40 anos.

Sobrevivência
O trabalho familiar não significa, contudo, fidelidade cega. O sorridente e cordato Garibaldi Alves Filho tem um farto senso de sobrevivência política. Em 2001, quando o Ministério Público e a Polícia Civil do Estado invadiram a casa de sua irmã, Maria Auxiliadora, atrás de documentos que incriminassem o seu marido, Marcos Nelson dos Santos, o então governador teria sido avisado com antecedência, mas deixou de interceder em favor da irmã. Em seguida pôde dar uma resposta, ao impedir que a Assembléia instaurasse uma CPI que atingiria seu governo e sua família.
Como em toda família, o tempo cura as feridas. O senador diz que "se dá muito bem" com o cunhado acusado de tráfico de influência em duas ações penais em andamento no fórum de Natal, movidas pelo Ministério Público. Pelos depoimentos de Santos, que sempre isentou Garibaldi de qualquer participação em seus lobbies, a recíproca é verdadeira.
Os Alves hoje se ajudam principalmente quando o objetivo é abrir espaço na mídia para um parente político. Eles detêm um dos dois maiores jornais do Estado, a "Tribuna do Norte", entre quatro e 12 emissoras de rádio, ninguém sabe ao certo, e participação societária na afiliada da Rede Globo em Natal.
Embora poderosa politicamente, a família não ostenta grandes propriedades rurais ou empresas. O pai do senador diz não ter mais do que 400 cabeças de gado, um rebanho médio para os caciques nordestinos. Garibaldi Filho costuma dizer que não tem dinheiro nem para suas campanhas eleitorais.

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