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30 de março de 2008 às 10:13

A homenagem de Paulo Balá, na coluna de Woden Madruga, ao maior e melhor dos sertanejos

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O domingo começa com a leitura emocionada da coluna de Woden, na Tribuna do Norte. Que mais uma vez transcreve as belas cartas – muitas já publicadas em livro – do médico radiologista Paulo Bezerra…conhecido no sertão de Acari por Doutor Paulo Balá…
Que conta histórias da firmeza e da coragem do homem sertanejo…e cita como exemplo o que foi mais importante para mim.
Que me ensinou a nadar no açude da Ping´água, a catar os umbus mais doces no pé que reservava somente aos netos – eu e meus dois irmãos…que cultivava um pé de figo também para nós três…que anotava com presteza num caderno as datas de nascimentos dos bezerros filhos de Princesa, a minha vaca…que me ensinou a jogar baralho e a pegar pela primeira vez na direção de um carro, no seu jipe Toyota…
Transcrevo aqui a carta de Paulo Balá a Woden, para homenagear os meus avós Guttemberg e América, que já se foram…e deixaram as saudades mais doídas…
E para mostrar ao meu leitor, que já sabe quem eu sou…
Quem eu fui…de onde eu vim…

30/03/2008
AS SERPENTES DO ACARI
Nas vésperas da sangria do Gargalheiras, que é um dos mais belos espetáculos da natureza, me chega carta do doutor Paulo Bezerra, senhor daquelas águas e daquelas pedras. Tira um fino nas chuvas que caem generosamente no seu chão, preferindo abordar, em suas bem traçadas linhas, os sentidos que o homem do sertão sabe desenvolver na convivência com essa mesma natureza, entre eles o da visão. É aqui que entra essa história das cobras cujo rasto o sertanejo percebe de longe e sabe distingui-lo com precisão do dos outros bichos, inclusive o da rolinha que cata sementes de capim e da do rabo do tejo. Vejamos:

“Amigo velho Woden.
Você sabe que o homem nascido e criado no sertão, compartilhando das manifestações da natureza, de tanto ver as coisas, desenvolve um censo de observação fora do comum e, dentro dos sentidos fundamentais, um que muito se lhe aguça é a visão. Qualquer mudança no seu caminho de todos os dias é um alarme, chama a sua atenção, seja um rasto, uma folha caída, uma marca no chão, um risco.
Assim é que identifica o sinal de uma corda de arrasto posta na cabeça de uma novilha de amanso, pois ao lado do seu rastro vai o risco da corda; o risco do rabo do tejo mostrando de um lado o do outro as suas pegadas; o rastro da rolinha que andou catando sementes caídas do capim; a carga de ração vinda da vazante deixando talos de capim e o chão varrido, como fazia Lampeão para esconder rasto: o risco grosseiro do pau arrastado por um junta de bois; a trilha larga feita por uma zorra ferindo o chão; o rasto das pessoas que transitam por ali e assim por diante.
Pedro Januário, um marchante de corda que Deus levou já faz tempo, bem parecido, conversador, alto, forte e disposto, chegou apressado precisando de uma arma de foto, pois vira nas areias do riacho que o caminho cruzava um rasto largo que só podia ser de cobra. Ou uma cascavel grande ou uma cobra de veado podendo levar, um ou outra, a barriga estufada por um preá engolido. Observando a trilha sinuosa e vendo em que sentido a areia fina era deslocada, deduziu qual o sentido do seu caminho e o seguiu até encontrar uma enorme cobra de veado à sombra de uma pedra. Morta, rolada além do rabo e do pescoço, arregaçou-lhe o couro, encheu-o de areia e o pôs dependurado para seca. Daria um belo cinturão. E muitos até faziam uso de cinturão feito com couro de cobra como remédio para dor no espinhaço.
Há o fato de Tiburtino Bezerra ter sido laçado por uma cobra de veado escapando graças à sua força física, a um cachorro e a um canivete, fato já relatado, inclusive, por Sandoval Wanderley em crônica do seu tempo.
Das que rastejam pelo sertão a mais temível vem a ser a cascavel – Crotalus terrificus – porque mais numerosa embora pouco agressiva, atacando quando se sente agredida. Seu maracá tem som característico e resulta de uma porção de pele que não foi trocada e endureceu o que acontece algumas vezes ao ano. As peças imbiricadas, portanto não falam da idade da cobra em anos, mas das vezes em que a pele foi trocada. Seus inimigos são outras cobras, os gatos, a seriema, a acauã que tem sido vista, em pleno vôo, levando uma cobra presa pelos pés, fato presenciado por tantas pessoas e, por fim, o bicho-homem a lhe esmagar a cabeça.
Quando um mordido não apresenta sintomas dizem que a cobra gastara a sua carga de veneno ao se alimentar antes. E diz-se de alguém inquieto e irritado: “Ta feito cobra que perdeu o veneno”. Da meizinha tem a casca da faveleira, o leite do pinhão, o calomelano dissolvido em suco de limão, a castanha torrada, o anil de pôr em roupa e o cuspe de quem já foi ofendido. Os soros anticrotálico, antibotrópico ou polivalente saíram das farmácias restando um produto do Ceará vendido no meio veterinário que tem se mostrado eficiente. Fora disso a solução é correr para o Hospital Giselda Trigueiro.

Um maraganha de palavra, de caráter e disposto de coragem foi embora para o Rio onde chegou a possuir uma oficina mecânica em Petrópolis e aonde fez firme amizade com gente boa de lá, observando o critério de só se encostar em pé de pau que desse sombra. Fez-se amigo de Estrela, o chefe do trânsito, de quem levava o carro para conserto em sua própria oficina e também de um médico famoso que lhe confiava o carro para ir aplicar em domicílio, injeções em seus clientes. Certa vez, brecado por um guarda foi franco: “Nunca precisei de documento para dirigir no Rio. Vou neste carro, que é de um médico, fazer injeção numa sua cliente lá no Flamengo. Se me impede eu comunico a Estrela e amanhã mesmo suas fitas voam”. Foi o bastante.
Tudo, no entanto, corria bem até chegar a notícia de que um vizinho injuriara e ameaçara o seu pai, o respeitável Napoleão Antão Pereira de Brito, da fazenda Ping’água. Resolveu voltar de acordo com o irmão Hortêncio no cuido de administrar a fazenda e lavar a honra do pai, instinto não satisfeito pela covardia do impostor que amunhecou, mostrando as batatas das pernas. Ficou, constituiu família e a ela se dedicou com todo afinco, entregue ao trabalho constante com a agricultura e com a criação, sensível sempre à precisão dos mais pobres. Um homem honesto e limpo e cheio de qualidade que, inclusive, o levaram, mais adiante, à administração municipal.
O filho de Anunciada e Antão morreu aos 95 anos (1903-1998), de velhice e das saudades torturantes de América, sua mulher, que se foi na frente. Legou muitos exemplos, todos edificantes.
A sua presença aqui entre cobras se justifica pelo hábito que tinha de comer carne de cascavel como remédio e como preventivo de doença reumática. Sentiu a necessidade daquilo. Tratava-a desprezando as partes mais finas: a um palmo da ponta do rabo, a um palmo da cabeça. Tirado o couro fazia o filé de onde havia mais carne, esfregando-a com limão. Restava salgar, pôr o tempero e torrar. Aliás, Zé Américo em “A Bagaceira” fala de “Galdino Cascavel” que “comia, em plena feira, rolos de cobra com farinha seca”.
Falei de Gutemberg Pereira de Brito de saudosa lembrança para mim.
Receba um abraço deste velho sertanejo do Seridó.
Fazenda Pinturas, 20/21/22/23 de março de 2008, dias da Semana Santa e das santas chuvas.

Paulo Bezerra

Do Blog – Só para completar…os bifes de cobra cascavel preparados pelo meu avô, e que eu comia, eram uma delícia.

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