Thaisa Galvão

21 de dezembro de 2011 às 9:30

Ingrid Betancourt, por Paulo Araújo [0] Comentários | Deixe seu comentário.

O Blog reproduz, na íntegra e muito mais, entrevista feita pelo jornalista Paulo Araújo, diretor de Jornalismo da SimTV, com a ex-senadora colombiana Ingrid Betancourt, publicada pela revista Viver Bem.

Com um detalhe: as *duas últimas perguntas, que acabaram ficando fora da página por falta de espaço, são exclusivas do Blog.

As palavras de Ingrid ao jornalista emocionam. Mas elas são apenas o gostinho do que, certamente, é o livro da ex-senadora. Que eu vou correndo comprar.

Entrevista/Ingrid Betancourt

“LIBERDADE É PODER DECIDIR QUEM SOMOS”

Como a ex-senadora colombiana que ficou seis anos e meio sequestrada na selva amazônica transformou o inferno do cativeiro numa lição de vida, coragem e perdão

Por Paulo Araújo para Viver Bem

Uma vida segura e confortável, um segundo casamento feliz, dois filhos adolescentes, uma carreira política vitoriosa como senadora e uma campanha eleitoral que provavelmente a conduziria à presidência da Colômbia dali a poucos dias. Tudo ia muito bem na vida de Ingrid Betancourt quando, em fevereiro de 2002, aos 41 anos, ela e os membros da sua equipe foram sequestrados pelos guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), organização terrorista que já havia matado outros 15 candidatos à presidência do país.

Obrigada a viver como nômade na selva amazônica colombiana em meio às condições mais degradantes que um ser humano possa imaginar durante seis anos e meio, Ingrid amargou o cotidiano infernal de um cativeiro que durou exatos 2 321 dias – a maioria deles acorrentada pelo pescoço às árvores da floresta – aprendeu a escutar a sua alma de forma quase monástica e foi libertada numa operação cinematográfica acompanhada por todo o mundo em julho de 2008. A partir daí, a mulher que um dia pensou em melhorar seu país por meio da política passou a rodar o mundo fazendo um relato dramático, assustador e revoltante dos anos como prisioneira das Farc por meio do que ela considera o maior veículo de todas as revoluções: a palavra.

No final de outubro, Ingrid Betancourt esteve em Natal para lançar o livro “Não Há Silêncio que Não Termine” (Cia das Letras) e contar aos participantes de um fórum de gestão como desenvolveu estratégias para escapar das garras do “diabo que vive na selva” planejando uma fuga impossível, tentando escapar diversas vezes, sendo invariavelmente recapturada pela guerrilha, faminta e perdida na selva. Nesta entrevista à VIVEM BEM, marcada por olhares de meiguice e cansaço, voz gentil e uma expressão corporal em que tudo parece frágil – além da lembrança de que nasceu no dia 25 de dezembro e por pouco não foi batizada com o mesmo nome da nossa cidade – Ingrid transmite uma lição de força para resistir, em meio à doença e à fome, ao desespero, e ensina: “os medos são os maiores presentes que podemos ter na vida”.

Viver Bem –  Qual foi a primeira sensação que a senhora teve ao se dar conta de que havia sido sequestrada?

Ingrid Betancourt – Nos primeiros dias, eu só pensava em fugir para reencontrar meu pai, que havia sofrido um infarto há três semanas, no hospital em Bogotá. Eu havia dado uma pausa na campanha para cuidar dele e, na minha cabeça. Muito pior do que aquela situação de privação de liberdade era o desespero de, talvez, não voltar a vê-lo com vida. Nos primeiros dias, minha família fez apelos pelo rádio para os guerrilheiros me soltarem, mas nada adiantou. Eles, inclusive, nos proibiram de ouvir o rádio. Um mês depois que fui sequestrada, na hora exata da captura, meu pai faleceu.

Viver Bem – Como a senhora ficou sabendo?

Ingrid Betancourt – Muito tempo depois. Nossa alimentação era somente farinha e feijoca (uma semente de uma flor parecida com feijão), água e açúcar. Certo dia, eles trouxeram repolho cozido envolto num jornal. Louca por notícias do mundo aqui fora, desembrulhei o repolho, alisei o jornal no colo e me deparei com a foto de um padre, rodeado por jornalistas, e a legenda abaixo: consternação pela morte do pai da senadora Ingrid Betancourt. Não sei como não morri naquele momento. Eles fizeram de propósito.

Viver Bem – E a partir daí?

Ingrid Betancourt – Passei o primeiro ano todo sem dormir, passando pelo sono durante poucos minutos e tendo sempre o mesmo pesadelo: eu era uma menina que ia levando o meu pai pela mão para um hospital, até chegar num taxi. Acordava nesse ponto. Durante esse período tinha a esperança de que fossem me resgatar, mas a partir do segundo ano fui tomando consciência de que estava no meio da selva, completamente perdida, sem saber como e para onde fugir.

Viver Bem – Mas a senhora tentou fugir várias vezes. Como se preparava?

Ingrid Betancourt – Antes de uma das fugas, aprendi a beber água barrenta de um rio para provar a mim mesma que sobreviveria aos parasitas quando fugisse. Colecionei restos de isopor que vinham em caixas de remedios para fabricar bóias e nao ter de nadar no rio o tempo todo, além de ficar longe das margens, onde estavam os jacarés. Numa dessas várias tentativas de fugas frustradas, recebi como castigo ficar com uma corrente de ferro pesada no pescoço, amarrada numa árvore. Durante meses ficava nessa situação, proibida de falar com qualquer companheiro, obrigada a fazer as necessidades fisiológicas na frente dos guardas.

Viver Bem – A senhora teve medo de morrer?
Ingrid Betancourt – Sim, a morte foi uma companhia constante, todos os dias. Aprendi que ela, mesmo sendo uma coisa negativa, é o que nos faz humanos. Todos os dias, me perguntava: por que a mim? Por que tenho que morrer aqui? Mas aí fui, lentamente, aprendendo que a liberdade é a condição fundamental e indispensável para a dignidade humana. E passei a lutar por ela com todas as minhas forças. Não queria mais morrer. Me apeguei a isso.

Viver Bem – O que acontece ao ser humano que é submetido a tantos anos de cativeiro?

Ingrid Betancourt – Perdem todo o sentido de solidariedade e se engalfinham em disputas por um pedaço de queijo, um comprimido de vitamina C e até um lugar para armar uma rede.

Viver Bem – Do que a senhora mais sentia falta do mundo aqui fora?

Ingrid Betancourt – Coisas simples como sentir um cheio de um perfume, abrir uma geladeira ou usar um sapato de salto alto. Por outro lado, cada vez que hoje eu sinto cheiro de mata recém-cortada ou escuto barulho de helicóptero preciso correr ate o banheiro para vomitar.

Viver Bem – Sua libertação virou uma causa mundial e os terroristas das Farc tinham consciência disso. Em que medida isso ajudou ou atrapalhou sua integridade física?

Ingrid Betancourt – Os terroristas estavam sempre em fuga do Exército colombiano e isso nos obrigava a estar sempre mudando o local do acampamento. Caminhávamos horas, dias, semanas, meses, escoltados por um comandante cruel, que sentia prazer em matar um animal bonito como um papapaio e dizer: “aqui eu mato quem eu quiser”. No meu caso, não havia qualquer preocupação em me manter viva, pois fui submetida a castigos como levar coronhadas de fuzil nas costas, ser jogada na lama…Numa das mudanças, eu estava muito debilitada pela hepatite e não conseguia caminhar. Fui carregada numa rede por dois guerrilheiros que faziam questão de balançá-la contra galhos e espinhos. Por outro lado, a guerrilha permitiu que eu enviasse poucas cartas à minha família e gravaram vídeos como prova de que eu estava viva. Esses foram os únicos resquícios do mundo aqui fora de que eu continuava viva. Só sobrevivi por que Deus quis. Estou em Natal por causa dele.

Viver Bem – Falando em religião, como a senhora manteve o seu espírito tranquilo?

Ingrid Betancourt – Os dois únicos livros que me deixaram ter no cativeiro foram um dicionário e uma Bíblia. Neste segundo, que é realmente o maior livro do mundo, encontrei toda força necessária para sobreviver. Nunca perdi minha fé. Cheguei a confeccionar um terço com restos de botão de um uniforme militar e barbantes e estava sempre conectada com Deus. Rezava muito, pois aprendi que Deus, ao criar o mundo, tomou uma decisão fundamental: nos fazer livres.

Viver Bem – E o que é a liberdade para a senhora?

Ingrid Betancourt – É a possibilidade de decidirmos quem somos. No cativeiro, começaram a nos chamar por números e todos os dias, na hora da contagem dos prisioneiros, tínhamos que dizer: “1, 2, 3”. O meu era o 10. Até que um dia tomei coragem e disse: “Ingrid Betancourt”. Aquilo provocou uma revolta imensa no comandante mas foi minha primeira reação de coragem: dizer o meu nome verdadeiro, quem eu era. “Ingrid Betancourt, Ingrid Betancourt”. E os outros prisioneiros passaram a fazer isso também. Nos libertamos, primeiro, ao dizermos o nosso nome. Já que eu não podia defender meu corpo, defendia minha alma.

Viver Bem – Como a senhora lidou com o medo de morrer?

Ingrid Betancourt – No começo, como já disse, meu medo não era do sequestro em si, mas da possibilidade de não ver mais meu pai com vida, o que acabou acontecendo. Depois, passei a ser confrontada com aquilo que foi sendo o maior temor, à medida que os anos passavam, que era o terror da privação de liberdade. E é importante respeitarmos os nossos temores. Eles não podem ser ignorados. Os medos são os maiores presentes da nossa vida, pois nos dão a oportunidade de nos vermos de frente e pensar: “e agora?”.

Viver Bem – Como foi retomar sua vida aqui fora depois da libertação?

Ingrid Betancourt – Os cinco minutos que se passaram dentro do helicóptero no trajeto entre a selva e a primeira cidade que encontramos foram como séculos para mim, depois de seis anos e meio de espera para ser libertada. Senti um terror imenso de encarar de novo a liberdade. Fugir, depois de seis anos e meio, implicava sair do conforto. Como iria encontrar meus filhos, que eu havia deixado com 16 e 13 anos? E o meu marido?

Viver Bem – Como ficou sua vida?
Ingrid Betancourt – Assim como todos os outros companheiro, acabei me divorciando do meu segundo marido e hoje vivo entre Nova York e Paris, onde moram meus filhos. Talvez pela experiência de constante mobilidade no cativeiro, hoje não consigo mais passar muito tempo no mesmo lugar. Brinco que a minha casa hoje é uma mala.

Viver Bem – O seu livro não fala de política ou ideologia. Por quê?

Ingrid Betancourt – Em “Não Há Silêncio Que Não Termine” procurei fazer um relato intimista, reflexivo, emocionado, às vezes até mesmo colegial do que foram aqueles dias. Durante doze meses, escrevi furiosamente das 8 da manhã às 4 da tarde, sem parar. Em alguns dias, as memórias eram tão dolorosas que eu não conseguia avançar.

*Viver Bem – A senhora foi uma das senadoras mais atuantes da Colômbia. Não pensa em voltar à política?

Ingrid Betancourt – Não. Passei por experiências tão recompensadoras nos anos de cativeiro que em lugar nenhum encontraria mais a realização que tive, em meio ao inferno do cativeiro, como aproveitar coisas simples como a beleza de uma lua cheia, vista no meio do rio durante uma das minhas tentativas de fuga.

Viver Bem – A presidente do Brasil, Dilma Roussef, também viveu a experiência do cativeiro durante a ditadura militar no Brasil. Como a senhora avalia a nossa presidente?

Ingrid Betancourt – Com muita admiração e respeito, pois ela nunca fez dessa condição de prisioneira uma espécie de vitimização pessoal. É uma líder que sabe enfrentar dificuldade como poucos, certamente.

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