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13 de julho de 2016 às 9:22

Depois das propinas, cachês para depoimentos favoráveis na lava jato

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E assim segue o mundo mágico da java jato e suas negociações.
Agora a dinheirama derramada não funciona mais como propina para eleger ou reeleger políticos.
Agora o derramamento de dinheiro é para o salve-se quem puder. Ou quem tiver…dinheiro.

Veja matéria da Folha mostrando o comércio das delações:

Gravação expõe pedido de propina para evitar delação na Lava Jato

AGUIRRE TALENTO
MÁRCIO FALCÃO
DE BRASÍLIA

Uma gravação de áudio anexada a um dos processos da Lava Jato no STF (Supremo Tribunal Federal) expõe o funcionamento de uma espécie de mercado de delação premiada no esquema de corrupção da Petrobras.

O protagonista é Alexandre Margotto, ex-sócio do corretor de valores Lúcio Bolonha Funaro, acusado de ser operador do deputado afastado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). No diálogo, ele pede dinheiro para não dar depoimentos contra Funaro.

Na conversa, Margotto diz: “Eu quero estar do lado do Lúcio e que ele não me desampare financeiramente nem juridicamente. Mas eu já quero cem pau agora, R$ 100 mil”.

A Folha teve acesso ao áudio, anexado pela defesa de Funaro ao processo que determinou a prisão preventiva dele no dia 1º, sob acusação de ser operador de Cunha em um esquema de corrupção na Caixa Econômica. Os desvios foram denunciados na delação do ex-vice da Caixa Fábio Cleto e resultou na Operação Sépsis da Polícia Federal. Margotto foi sócio de Cleto.

O diálogo revela outro caso de negociação para evitar delação. O de maior notoriedade até agora ocorreu em novembro, quando o ex-senador Delcídio do Amaral (ex-PT-MS) foi preso após ser gravado oferecendo dinheiro para impedir a delação do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró. A defesa de Funaro disse ao STF que o áudio mostra tentativa de Margotto chantagear seu cliente.

O interlocutor identificado como Bob pergunta a Margotto o que ele poderia falar sobre a disputa entre Funaro e o grupo Schahin. “Não depor contra ele já é um grande favor. Eu sei toda a história do Schahin”, diz Margotto, que afirma que Funaro “comprou um juiz que eu arrumei”.

A Schahin é investigada na Lava Jato e acusa Cunha e Funaro de terem achacado a empresa no Congresso. O motivo seria uma dívida de R$1 bilhão que Funaro cobra por prejuízo que a empreiteira teria lhe causado em uma obra de hidrelétrica em Rondônia.

Na conversa, de abril, Margotto fala que encontraria um advogado no dia seguinte. A reportagem apurou que o encontro seria para discutir sua delação, mas que a colaboração não prosperou. Ele também foi alvo de mandados de busca e apreensão na Sépsis.

Margotto pede o pagamento de dívidas que o corretor de valores teria com ele e afirma que tinha a receber em torno de R$ 12 milhões e o valor teria que ser negociado, além dos R$ 100 mil emergenciais. “Primeiro, só não quero ser preso. Segundo, ter dinheiro para pagar minhas contas”.

OUTRO LADO

A Folha não conseguiu encontrar Margotto. Segundo advogados que o assessoram, a conversa era um blefe para tentar receber o que Funaro lhe devia.

O advogado de Funaro, Daniel Gerber, disse que as acusações contra seu cliente no áudio são “bravata” e que ele não tem envolvimento com o esquema de corrupção na Caixa.

Cunha também nega relação com o esquema.

A Schahin diz que não teve responsabilidade pelo prejuízo alegado por Funaro.

MERCADO DE DELAÇÃO

Em áudio, ex-sócio do corretor de valores Lúcio Funaro fala em dinheiro para não implica-lo em depoimentos

QUEM É QUEM

Alexandre Margotto
Foi sócio do ex-vice da Caixa Fábio Cleto e do corretor de valores Lúcio Bolonha Funaro em um fundo de investimentos

Lúcio Funaro
Apontado por Cleto como operador do esquema de corrupção na Caixa, foi preso na Operação Sépsis

A CONVERSA
Gravada em abril por dois interlocutores em comum de Funaro e Margotto

Bob – O Lúcio hoje tem que ser um parceiro teu. Ele não pode ser um inimigo teu. […]

Margotto – Mas ele precisa me pagar, Bob. Porra, meu.

Bob – Pagar essas tuas dívidas atrasadas, tal. Cem pau resolve?

Margotto – Para começar a negociar, já. Precisa pagar cem pau agora, já, para depois a gente sentar e negociar.

Bob – Você fica parceiro dele?

Margotto – Para começar a negociar.

[…]

Bob – Você fala para ele que você ajuda e corrobora a favor dele.

Margotto – Tá bom, mas eu preciso primeiro apagar meu incêndio. Preciso pagar mercado cara, cartão de crédito. Tá me fudendo. Meu, apaga o incêndio do cara.

Bob – Você ajuda ele contra o Fábio [Cleto] e contra o Schahin?

Margotto – Ajudo.

Bob – Eu to lutando contra meu amigo que é o Schahin.

Margotto – Eu ajudo com o que quiser.

Bob – O que você tem a favor dele contra o Schahin?

Margotto – Não falar nada. Não depor contra ele já é um grande favor. Eu sei toda a história do Schahin.

Bob – Sabe quanto o Schahin deve pra ele [Funaro]? Um bilhão e meio [de reais].

Margotto – O Lúcio comprou um juiz que eu arrumei. Ele sabe.

Bob – E ele sabe disso? A favor do Lúcio?

Margotto – Sabe.

[…]

Margotto – É muita sacanagem eu não receber desse cara, Bob. Você não defender e ele não me pagar.

Bob – Pera um pouquinho, ele tá com alguns problemas, você também. Temos um desembargador, um procurador, os três caras abaixo do procurador-geral da República.

Margotto – Quando você falou que ele me deve 12 paus, ele falou o quê?

Bob – Que não procede…

Margotto – É quanto então?

Bob – Ele não falou nada. Eu falei R$ 12 milhões, que são R$ 4 da Caixa, R$ 5,5 do Big Frango, mais juros e tudo mais… e os US$ 538 mil do Fábio [Cleto] que têm que voltar que você honrou.

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