Thaisa Galvão

27 de fevereiro de 2020 às 12:43

Vera Magalhães: a vítima da vez [0] Comentários | Deixe seu comentário.

O bolsonarismo cheio de problemas, que vão de rachadinhas, funcionários fantasmas, porteiro de condominio, fábrica de fake news, milicianos homenageados e chocolate com recheio de laranja…achou por bem atacar a jornalista Vera Magalhães (Estadão/TV Cultura), porque ela publicou o plano para tentar implodir o Congresso Nacional com apoio de Jair Bolsonaro.

Maior ataque feito a Vera: que ela recebeu a cobrança do colégio dos filhos para pagar mensalidade em atraso.

Pura hipocrisia atacar alguém porque não pagou uma conta no prazo.

Quem não já passou por isso?

Como desqualificar uma pessoa que passou por uma dificuldade, talvez…

Caberia a crítica à jornalista se, diante da falta de dinheiro para pagar a mensalidade do colégio dos filhos no prazo, ela se submetesse a ser funcionária fantasma no gabinete de um deputado, para no final do mês ficar com o dinheiro do colégio dos filhos e entregar o resto ao patrão.

Caberia a crítica a Vera Magalhães, se no momento em que ela ou o marido ficou desempregado, ela se submetesse a ser sócia-laranja de algum político em uma loja de chocolate qualquer…

Caberia a crítica se a jornalista, com dificuldade de pagar uma conta em dia, se submetesse a produzir, em vez de notícias verdadeiras, dessas que incomodam corruptos, aceitasse usar sua inteligência para, a pedidos, produzir mentiras e espalhar como verdades.

A jornalista Vera Magalhães segue seu trabalho…

A TV Cultura fez editorial de apoio à apresentadora do programa Roda Viva.

O jornal O Estado de São Paulo publicou editorial criticando o apoio do bolsonarismo à implosão do Congresso.

Confira:

O presidente Jair Bolsonaro precisa esclarecer, sem meios termos, que não apoia a convocação de uma manifestação em sua defesa e contra o Congresso Nacional, feita por seus apoiadores. Os cidadãos são livres para se manifestar contra quem bem entenderem, mas um presidente da República não é um cidadão comum e não pode permitir que seu nome seja usado para alimentar um protesto contra os demais Poderes constituídos. Se aceitar essa associação, ou, pior, se incentivá-la mesmo indiretamente, Bolsonaro estará corroborando as violentas críticas que esses apoiadores, em claro movimento golpista, estão fazendo contra o Congresso, tratado nas redes sociais bolsonaristas como “inimigo do Brasil”.

Ao distribuir a seus contatos no WhatsApp uma das virulentas peças de propaganda da manifestação convocada para o próximo dia 15 de março, o presidente ajudou a disseminar a mensagem, o que equivale a chancelá-la. Bolsonaro disse que apenas distribuiu a mensagem a “algumas dezenas de amigos, de forma reservada”, como se o caso pudesse ser resumido a uma comunicação de caráter pessoal. Mas tudo o que diz um presidente da República, em razão de sua proeminência política, tem enorme poder de influenciar os rumos do País, razão pela qual seu apoio tácito a um protesto contra o Congresso, mesmo que manifestado apenas a um punhado de simpatizantes, configura óbvio abuso de poder, pois incita ilegítima pressão popular sobre o Legislativo.

Não se pode dizer que surpreende a nova estocada do bolsonarismo contra o Congresso, com a anuência do presidente da República. “Eu respeito as instituições, mas eu devo lealdade apenas a vocês, povo brasileiro”, discursou Bolsonaro em agosto do ano passado. “Povo brasileiro”, parece claro, é o nome que Bolsonaro dá a seus seguidores – que, segundo o próprio presidente, são “35 milhões em minhas mídias sociais”. E a estes que Bolsonaro jura lealdade, embora tenha sido eleito para governar a Nação dentro das normas democráticas.

O menosprezo de Bolsonaro pelo Congresso – onde esteve por quase três décadas como deputado – foi reafirmado diversas vezes na campanha eleitoral e depois de sua posse como presidente.

Em maio de 2019, distribuiu pelo WhatsApp um texto de teor golpista, segundo o qual o País é “ingovernável” sem os “conchavos” políticos, em alusão à necessidade de negociação com o Congresso, e que, sendo assim, “o presidente não serve para nada”. Na ocasião, Bolsonaro disse que contava “com a sociedade” para “juntos revertermos essa situação” – um óbvio apelo direto ao “povo” contra as instituições.

Assim, o presidente parece procurar construir um regime populista de inspiração militar, bem ao gosto dos saudosos da ditadura e que faz lembrar o governo do general Velasco Alvarado no Peru (1968-75), que hostilizava os partidos por considerá-los parte do sistema oligárquico que dizia combater em nome do “povo”. Anos depois do fracasso da experiência peruana, o coronel Hugo Chavez implantou na Venezuela uma versão do “populismo militar” cujos resultados estão à mostra. Esse não e um modelo a ser imitado.

Ante a escalada bolsonarista, autoridades dos demais Poderes reagiram. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, retratado como um porco em uma das mensagens a respeito da manifestação do dia 15, disse que cabe às autoridades “dar o exemplo de respeito às instituições e à ordem constitucional”. O ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes afirmou que “a harmonia e o respeito mútuo entre os Poderes são pilares do Estado de Direito, independentemente dos governantes de hoje ou de amanhã”.

Fazem bem o Congresso e o Supremo em se manifestar de modo sereno, mas firme, sobre o comportamento do presidente e de seus seguidores.

Também fez bem o general Carlos Alberto dos Santos Cruz, ex-ministro de Bolsonaro, que criticou o uso de fotografias de militares na convocação dos protestos contra o Congresso, que ele qualificou de tentativa “grotesca” de confundir o Exército com o golpismo bolsonarista. A despeito disso, é muito provável que os bolsonaristas continuem a testar os limites da democracia – e portanto cabe às instituições impedir que eles consigam ir alem das bravatas.

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