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21 de junho de 2021 às 16:20

Em editorial no site ‘O Antagonista’, jornalista chama ministro Fábio Faria de “asno”

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A declaração infeliz do ministro Fábio Faria, fazendo contagem regressiva para as 500 mil mortes e atacando jornalistas, políticos e artistas não iria acabar bem para o pré-cansidato a senador pelo Rio Grande do Norte…

Por Mário Sabino

O ministro da Propaganda, Fábio Faria, deve achar-se um gênio, mas é de se perguntar se ele não é o exato oposto disso. Senão, vejamos: no sábado, quando o Brasil atingiu a marca de meio milhão de mortes por Covid, Fábio Faria disse a seguinte estupidez no Twitter: “Em breve vocês verão políticos, artistas e jornalistas lamentando o número de 500 mil mortos. Nunca os verão comemorar os 86 milhões de doses aplicadas ou os 18 milhões de curados, porque o tom é sempre o do ‘quanto pior, melhor’. Infelizmente, eles torcem pelo vírus”.

Como dissemos anteontem a respeito do tuíte de Fábio Faria, trata-de de uma fala delinquente. O governo não “curou” a maioria esmagadora dos infectados, porque eles se recuperaram naturalmente. A outra parte foi parar no hospital, onde quem os ajudou foram médicos e enfermeiros menosprezados por Jair Bolsonaro. O que o sociopata e seu bando fazem desde o início é estimular os cidadãos a se infectar, para atingirmos a “imunidade de rebanho natural”, uma falácia genocida, visto que, se mais gente tivesse deixado de se proteger, como prega a escumalha instalada no Planalto, a quantidade de mortes já seria muito maior. Quanto às vacinas, o ritmo de aplicação ainda está lento demais, não porque nos falte capacidade logística, mas porque o governo deixou de comprar imunizantes antecipadamente como deveria. Tanto é que, no ranking das nações, estamos num vergonhoso sexagésimo sétimo lugar no número de vacinados por 100 habitantes — um dado que o ministro da Propaganda tenta tolamente esconder com o número absoluto de imunizações, o de quarto país que mais vacinou no mundo. O ritmo de vacinação deve aumentar, é claro, mas quanto mais isso demora para ocorrer, mais gente morre. Jair Bolsonaro e seu bando são, portanto, culpados de boa parte das 500 mil mortes por Covid no Brasil e das que ainda virão a acontecer.

O meu ponto, contudo, é outro: o do exato oposto da genialidade. Não tenho dúvida de que, na oposição, existe o pessoal do “quanto pior, melhor”. A questão intrigante, contudo, é que no governo predomina o pensamento do “quanto melhor, pior”. Ou seja, que teria sido muito ruim se Jair Bolsonaro tivesse adotado as diretrizes da ciência no combate à pandemia, coordenando um esforço nacional na adoção de medidas restritivas e comprando as melhores vacinas no momento certo, e na quantidade adequada, como fizeram todos os países dignos desse nome, de acordo com as suas diferentes realidades. Se tais providências tivessem sido tomadas, tudo hoje estaria melhor, certo? Inclusive com uma retomada mais consistente da economia. Na clarividência bolsonarista, porém, a situação estaria pior se ela estivesse melhor. Não queira entender.

O negacionismo é, além de demonstração de sociopatia, prova do exato oposto da genialidade porque está empurrando Jair Bolsonaro para uma acachapante derrota eleitoral em 2022 — derrota que também o despirá de qualquer armadura frente a processos pelas suas atitudes criminosas, inclusive no Tribunal Internacional de Haia. Se fosse mesmo tão inteligente quanto pensa que é, Fábio Faria talvez percebesse que, como ministro da Propaganda, deveria esforçar-se para que o chefão dele parecesse ter empatia com o próximo.

No seu misto de sociopatia, alopragem e burrice (o exato oposto da genialidade), o governo não faz nem mesmo o cálculo do impacto negativo de tantas vidas perdidas na sua imagem e a repercussão eleitoral disso, preferindo negar a quantidade de mortes, o que é também patético. Há políticos que fazem esse cálculo. Especialistas em psicologia social disseram a Gilberto Kassab, cacique do PSD, que para cada morte por Covid, 100 brasileiros em média são afetados de maneira direta, em diversos graus. Em primeiro lugar, vem o círculo familiar da vítima, o que inclui parentes mais distantes; em segundo lugar, os amigos próximos; em terceiro lugar, os colegas de trabalho; em quarto lugar, os amigos de infância — que normalmente são informados da morte via redes sociais. Isso quer dizer que, com 500 mil mortes por Covid, 50 milhões de cidadãos já foram atingidos pela notícia trágica de uma morte pelo vírus de alguém das suas relações.

Cinquenta milhões de cidadãos e quase a metade do eleitorado brasileiro. Fábio Faria vai dizer o que a eles? Que a “imunidade de rebanho natural” teria sido menos mortifera? Vai continuar a vender a ideia abilolada do chefão de que a cloroquina teria salvado meio milhão de pessoas da “gripezinha”? Que se horrorizar com a morte de toda essa gente é coisa apenas de políticos, artistas e jornalistas hipócritas? Que o número de mortes está superestimado pela oposição? Que Lula é pior do que o virus? (Lula, por sinal, é a cloroquina que os petistas tentam vender como panaceia para o Brasil, e a mentira pode colar, dado o grau de perversidade e estupidez bolsonaristas). Qual é a aposta? A de que, daqui a um ano, os brasileiros esquecerão o massacre? Eu parto do pressuposto de que não esquecerão, se ainda houver algum grau de indignação nestas latitudes.

Caso não fosse o contrário do que pretende ser, Fábio Faria diria a Jair Bolsonaro que era bom já ir se acostumando com a ideia de fingir que um pouco humano. É duro, eu sei, mas é atribuição do ministro da Propaganda. Ele deveria ter tentado fazer com que o chefão pelo menos assinasse uma nota de pesar pelas 500 mil mortes por Covid. Mas não: chancelou equinamente o silêncio sepulcral de Jair Bolsonaro (e nunca o adjetivo se mostrou tão exato), baseado na mentira de que a estatística macabra é falsa, e ainda foi ao Twitter para escrever a enormidade que imaginou ser vacina política para mitigar o noticiário, mas acabou reconhecendo a realidade dos 500 mil mortos que o chefão quer esconder, comparando-a com as “curas’. O presidente da República é um sociopata que tem um asno como ministro da Propaganda, chamado oficial e eufemisticamente de ministro das Comunicações.

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