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Thaisa Galvão

11 de agosto de 2017 às 10:56

Primeira delação da Zelotes revela esquemas com empresas devedoras do Fisco [0] Comentários | Deixe seu comentário.

Do G1

 

Delator admite que recebia R$ 10 mil por mês para auxiliar conselheiro do Carf

Ex-auditor Paulo Roberto Cortez é o primeiro delator da Operação Zelotes, que investiga irregularidades no tribunal administrativo. Ele confirmou que conselheiros recebiam propina

 

Por Camila Bomfim, Bom Dia Brasil

 

Bom Dia Brasil teve acesso com exclusividade à primeira delação da Operação Zelotes, que, entre outros pontos, investiga o esquema de corrupção que atuava no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf).

O depoimento do ex-auditor da Receita Federal Paulo Roberto Cortez mostra que votos eram encomendados por empresas que deviam milhões ao Fisco e funcionários do Carf tinham despesas pagas por conselheiros em troca de informações que não eram públicas.

Paulo Roberto Cortez é um ex-auditor da Receita Federal.

Ou seja, representava o lado que cobra, fiscaliza e multa empresas e pessoas fisicas. Ele foi conselheiro do Carf até 2007.

 

O Carf é justamente o tribunal administrativo onde as empresas recorrem dessas multas da receita. Trata-se do conselho administrativo de recursos fiscais, ligado ao Ministério da Fazenda – onde as empresas, se conseguirem ter seus recursos aprovados, podem ter multas reduzidas ou até anuladas.

Paulo Roberto Cortez se tornou o primeiro delator da Zelotes a confirmar o que a operação investiga desde 2015: conselheiros do Carf recebiam propina para dar votos favoráveis às empresas.

O resultado era uma economia milionária para os grupos empresariais e uma perda de arrecadação para a Receita.

 

A TV Globo teve acesso com exclusividade a depoimentos da delação de Paulo Roberto Cortez. Ele contou como um conselheiro sem conhecimento técnico conseguiu decisão favorável ao Bank of Boston. O então conselheiro é José Ricardo da Silva, que era ao mesmo tempo conselheiro do Carf e dono de uma consultoria que atuava em casos do conselho.

O delator recebia R$ 10 mil por mês em dinheiro vivo para fazer o trabalho que José Ricardo, segundo ele, não sabia fazer.

“Na área de Imposto de Renda, ele [José Ricardo Silva] não tinha muito conhecimento, tampouco em contabilidade. Então, antes de cada sessão, quando eu trabalhava com ele, eu fazia as devidas explicações, repassava para ele o material e fazia as explicações de cada matéria a ser tratada em cada julgamento”, relatou Cortez aos investigadores da Zelotes.

 

O delator contou ainda que, em fevereiro de 2012, recebeu do então conselheiro Valmir Sandri um voto para o caso do Bank of Boston, e a orientação de adaptar o texto aos padrões do conselho.

Sandri também é investigado na mesma operação. De acordo com o delator, o voto tinha objetivo certo: beneficiar a empresa.

Em dois recursos no Carf, o Bank of Boston conseguiu reduzir uma multa de R$ 600 milhões para menos de R$ 100 milhões.

Se livrou de pagar meio bilhão de reais. O delator escreveu o voto de um desses recursos que o banco ganhou.

 

O delator contou também que José Ricardo conseguia informações privilegiadas no Carf para poder beneficiar o banco norte-americano. Em troca, pagou até despesas pessoais de um funcionário, Levi Antonio Silva, que atuava em uma das câmaras do conselho.

“[José Ricardo] recebia valores, eu lembro que algumas vezes eu via o escritório fazendo pagamentos de carnes de contas do Levi, colégio de filhos dele. O funcionário Hugo que fazia os pagamentos do escritório”, contou Cortez.

 

A Justiça Federal em Brasília já validou a delação de Paulo Roberto Cortez, e as informações serão utilizadas nas investigações sobre corrupção no conselho administrativo ligado ao Ministério da Fazenda.

A Procuradoria da República no Distrito Federal quer a anulação desse julgamento, para que seja reanalisado e o Carf avalie qual a multa deve ser aplicada ao banco.

 

Em um dos depoimentos, indagado pelo Ministério Público sobre como José Rricardo recebeu as propinas do Bank of Boston, o delator confirmou a existência de um esquema de corrupção.

“Eu não posso dizer, mas deve ter sido em espécie. Eu não sei dizer como ele [José Ricardo] recebeu. Deve ter sido em espécie e talvez parte daqueles valores que foram repassados a mim tenha sido nesse processo”, ressaltou o delator.

 

A defesa de José Ricardo da Silva não vai se manifestar. O Bom Dia Brasil não conseguiu contato com as defesas de Valmir Sandri, Levi Antônio Silva e do Bank of Boston.

Embora o Itaú-Unibanco tenha comprado as operações do BankBoston no Brasil, os investigadores afirmam que não há nenhum executivo da instituição bancária brasileira envolvido nas irregularidades apuradas pelo MP.

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