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11 de novembro de 2010 às 0:50

Conveniências…por Rubens Lemos

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Texto sempre muito atualizado, assinado pelo jornalista Rubens Lemos Filho e publicado em sua coluna no Jornal de Hoje desta quarta-feira.
Aliás, Rubinho, com seus belos textos, vem se superando a cada dia…
Que ele é o melhor colunista do momento atual no vespertino…não tenho a menor dúvida.

CONVENIÊNCIAS, NADA MAIS
Duvido que alguém já tenha se assanhado a uma mulher desejada e logo nas preliminares, tenha dito que gosta de Reginaldo Rossi. Ou do finado Paulo Sérgio. Ou de Odair José. O papo-cabeça ou a cabeça do papo gira sempre à Bossa Nova ou ao Tropicalismo.
É muito mais interessante e erudito se aproximar da pretensa presa (no sentido predatório afetivo ou sexual), e sem machismo, se dizendo fã do anasalado de João Gilberto, dos peixinhos de Tom Jobim, da fase Chico Buarque em plena Ditadura ou de Caetano, Gil e Betânia em suas odaras, tudo o que é bom, bonito e positivo.

É uma mania que se prolifera nos ambientes onde se concentra a geração pra lá de 40 anos. É todo mundo entendido em música e especialmente avesso a políticos, embora muitos deles dependam para pagar os 10% do garçom e ainda dar uma esticadinha para o motel, fisgada a moça, que nada tem, na cabeça Cult do sujeito, de semelhante com a canção do cantor Wando, o das calcinhas usadas em shows.
Tudo babaquice. Agora, a Banda Grafith, de interpretações de reggaes jamaicanos e rocks à Elton John que eu escutava no colegial tomando cerveja escondido de mamãe, faz a cabeça da grã-finagem natalense e é convidada para ambientes de luxo, onde jamais seria atração,dada a explosiva manifestação do seu público, concentrado nas áreas mais pobres da cidade.
Eu não me envergonho de dizer que gosto da Banda Grafith e dos agudos de Joãozinho, um dos seus vocalistas. Joãozinho em inglês é massa, doido, como dizem os seus fãs. Fiquei exultante quando soube que Júnior, o líder da banda, trata dos dentes com uma prima minha odontóloga, Eliane Marinho Magalhães. Ela ainda me deve o autógrafo dele.

Claro, que nas minhas solidões, vou de tudo o que quero. Quando desejo lembrar de minha convivência com papai, tome samba de raiz e MPB-4, Adoniran Barbosa e Nelson Sargento, Candeia e Manacéia, Lupiscínio Rodrigues e Adelino Moreira, Brasileiro Profissão Esperança, de Antônio Maria e Dolores Duran.
Sou louco por som internacional, escuto Beatles, Bee Gees, Rolling Stones, Evanescence, Pop anos 80, puxo o freio da imaginação, dou retorno,me inspiro, tome de novo João Nogueira, Beth Carvalho, Zeca Pagodinho, Elza Soares, Alcione e, sim, o que me impede? Reginaldo Rossi quando o porre é comunitário.
É a tal da individualidade que poucos respeitam ou escondem com vergonha de proscrito. O mundo que se dane se você está feliz, ainda mais, no caso específico do redator que vos aporrinha, de um homem que não incomoda ninguém nem se deixa perturbar por pouco sair de casa e curtir o que se quer no ambiente fechado para poucos companheiros.

Faço hoje uma autoanálise para dizer que os artilheiros também fazem parte do futebol. Os trombadores, os que trocam cotoveladas com os zagueiros e nenhuma intimidade têm com a bola. Eu detesto o que eles jogam, simplesmente porque não jogam nada e no romantismo impregnado em mim, há lugar para a técnica, a malícia, a inteligência e o drible, de Reinaldo, Romário, Tostão, Careca, Cláudio Adão, Bebeto, Ronaldo, homens de estilo e classe sem perder o faro de matança de goleiros.
Escrevo porque é preciso, neste time do ABC, no mínimo vice-campeão brasileiro da Série C, observar melhor Fernandão, o centroavante com jeito de Shrek, mas que, na hora do sapeca-iaiá de Bezerra da Silva, o sambista das favelas renegado pela elite, resolveu as paradas mais difíceis. Fernandão merece, sim, um elogio.
Cascata pode voltar contra o Ituiutaba e será bom para o time, mas a sua demora em retornar é digna de um mistério de Raymond Chandler. É proibido perguntar neste ufanismo que toma conta do ABC e de alguns repórteres esportivos engajados. Parecidos com a turma que cobria o Lula sindicalista. Aquele povo jogava longe os preceitos básicos de isenção por idealismo errático, o que também deve ocorrer aqui. Na verdade, é proibido proibir. Estranha esta situação de Cascata. Que ele me desminta arrebentando no Parque do Sabiá. Nome mais inspirador não há.

O bom é permitir e consentir o gosto, doce ou amargo, que cada um traz dentro do peito, porque assim, desse jeito, se faz uma democracia humana, musical e futebolística. Na literatura e no cinema, confesso, minha barreira é instransponível. É contradição? É. Eu sou gente, afinal.

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