Thaisa Galvão

17 de dezembro de 2011 às 16:10

Rubens Lemos e o olhar sobre Natal pelas lentes de Canindé Soares [0] Comentários | Deixe seu comentário.

Concordando com todas as letras do cronista, reproduzo aqui o texto do jornalista Rubinho Lemos em sua coluna do JH e em seu blog, o www.rubenslemos.com.br

TIJOLOS INVISÍVEIS

Rubens Lemos Filho

Uma cidade consegue sobreviver se existir alguém capaz de preservar os tijolos invisíveis de sua alma. A aldeia metrópole-dentadura sorri um sorriso social, esbanja o avanço do concreto e vai perdendo seus vigilantes líricos. Seus missionários de preservação espiritual, seus peregrinos, seus alvissareiros do farol da resistência. Seus bêbados, seus bedéis, suas fofoqueiras, suas carolas, seus xerifes de rua. Seus alcoviteiros.

A calma e a perspicácia formam um equilíbrio delicado com a coragem dos que se arriscam na missão visionária de preservar sua terra e os seus personagens, sua vida frenética e as suas origens. Há tempos que observo, do alto da minha calvície, o trabalho do repórter fotográfico Canindé Soares.

Canindé Soares faz parte de uma categoria profissional muito arriscada para os meninos de hoje. Canindé é um frila, um freelancer, um trabalhador livre e autônomo, sem patrões e lotado de emoções reservadas que explodem em imagens abertas de Natal em rostos, ruas, construções, paisagens, destruições, emoções, aventuras, tristezas, celebrações.

Avesso à vida social de eventos, por opção própria e sem condenar quem aprecia, observo Canindé Soares numa onipresença de minhas leituras virtuais e nas raras saídas de casa que não sejam ao trabalho. Aos jovens que começam a receber as suas pautas nas redações, Canindé Soares ensina, sem teorias e com humildade , que a regra básica do ofício é a maravilha do imprevisível.

Notícia não dorme, nem marca hora. Não espera nem tangencia. Com a febre das redes sociais, é Canindé Soares nos seus 32 anos de batalha em redações quem dá o exemplo renovador. É agente multiplicador do fato sem ser dele sua estrela. É transmissor. Sem juízo de valor, como eu faço dele, ao escrever agora, cometendo o pecado permitido ao aprendiz de cronista, que é o de adjetivar pelo vício da franqueza. Cronista é o mendigo da subliteratura.

Observar o trabalho de um notívago, de um madrugador, de um combatente da informação esteja ela onde estiver, é um a tarefa muito mais que banal. É flagrante por constatar que ainda existe vida em sentimento numa cidade onde já existiram jornais e poetas em cada esquina e hoje cada qual busca o lugar em que o outro por acaso domina.

Canindé Soares fotografa idosas em bailes de fim de ano. Sorridentes e exibindo, além dos vestidos longos, a felicidade que a força da modernidade expulsa de todos nós, os seus sucessores e, mais ainda, da geração do meu filho, que irá ocupar o meu lugar.

Ao subir num avião ao lado do piloto Roberto Duarte, outra figura de Natal, testemunha silenciosa e ética de articulações políticas e conchavos aéreos históricos conduzindo autoridades, Canindé Soares escancara, num Cinemascope imóvel, como se a tela do Velho Rex fosse, a cidade banguela sem o Estádio Machadão e o Ginásio Machadinho.

Eis a diferença sanguínea entre a frieza da expansão carrancuda e a sensibilidade de um profissional de fé e de amor pelo que faz. Sou mais a Natal de Canindé Soares.

O maior buraco de Natal, por Canindé Soares

 

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