Thaisa Galvão

6 de setembro de 2020 às 21:51

Ibope aponta Bolsonaro e população brasileira como responsáveis pelos números negativos na pandemia [0] Comentários | Deixe seu comentário.

Manchete na capa do Globo neste domingo:

E a reportagem com os números do Ibope:

RIO — Especialistas ouvidos pelo GLOBO corroboraram a percepção de 71% da população brasileira, revelada em levantamento exclusivo do Ibope feito a pedido do GLOBO: o Brasil sofreu muito mais do que se esperava na pandemia da Covid-19. Uma combinação deletéria de polarização política, disseminação de desinformação e a resistência do governo federal a tomar medidas urgentes de contenção do novo coronavírus criou o cenário de tempestade perfeita.

“Posso dizer com toda a tranquilidade que o Brasil é o país onde tudo deu errado. Foi feito tudo errado, inclusive com o comportamento errático de alguns governos, que promoveram confusão e conflito. O resultado é realmente essa catástrofe”, afirma Deisy Ventura, coordenadora do doutorado em saúde global e sustentabilidade da USP.

O primeiro caso de Covid-19 foi notificado em 26 de fevereiro, e a primeira vítima morreu em 12 de março. Desde então, mais de 126 mil vidas foram perdidas e cerca de 4,1 milhões se infectaram. Ventura lembra que, antes da pandemia, o Brasil era o país em desenvolvimento que melhor figurava em um ranking da Universidade Johns Hopkins (EUA) sobre segurança em saúde. O destaque era ainda maior na capacidade de resposta e prevenção, graças ao Sistema Único de Saúde (SUS).

Além de ter sido pior do que se esperava, mesmo para um país da dimensão do Brasil, o cenário de terra arrasada – cuja angústia ainda está longe de terminar – poderia ter sido evitado, na avaliação da epidemiologista Maria Amélia Veras, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e integrante do Observatório Covid-19BR.

“Houve informações contraditórias por autoridades como o próprio presidente. Como especialista em epidemiologia, até digo que sofremos desnecessariamente. Poderíamos ter nos preparado melhor de forma oportuna e até reduzido o sofrimento”, afirma Maria Amélia. “As primeiras notícias que tivemos de mobilização por parte do governo foi em direção a leitos e respiradores por meio de notícias da Itália e Espanha, e mesmo isso foi feito tardiamente. Os processos deveriam ter sido encadeados desde janeiro, quando a OMS declarou emergência internacional, com potencial de propagação pandêmica”.

A pneumologista e pesquisadora da Fiocruz Margareth Dalcolmo, colunista do GLOBO, afirma que um detalhe preponderante na epidemia brasileira é a desigualdade socioeconômica:

“Nossa letalidade é constrangedora e revela de modo obsceno a nossa desigualdade social. A letalidade não foi igual em algumas redes privadas como em alguns hospitais de campanha. Até na morte essa desigualdade foi revelada”.

Pandemia e polarização política

A pesquisa Ibope também identificou que a percepção de que a crise do coronavírus foi pior do que o esperado é menor em entrevistados que se declararam à direita no espectro político. O presidente Jair Bolsonaro minimizou o perigo da Covid-19 diversas vezes desde o início da pandemia, a exemplo de outros líderes de direita, como Donald Trump, nos Estados Unidos, e Boris Johnson, no Reino Unido.

“A resposta à Covid-19 foi ideologizada, partidarizada. Grande parte da população brasileira tratou a pandemia de forma plebiscitária. É muito terrível quando fenômenos de outras áreas fora da política são convertidos da forma mais brutal possível em plebiscitos”, afirma a professora da USP. “Isso revela o enorme retrocesso político moral e ético que estamos vivendo no Brasil. Não posso imaginar em nenhum país desenvolvido que o uso precoce da cloroquina, vacina e medidas de quarentena sejam tratados em uma cisão entre situação e oposição”.

Responsabilização pela situação atual

Quando indagados sobre quem tem a maior responsabilidade sobre o descontrole epidêmico no país, a maior parte (38%) aponta a própria população.

Logo atrás (33%) vem o presidente Bolsonaro, cujo governo teve dois ministros médicos demitidos, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, e mantém o general Eduardo Pazuello como interino desde maio.

“Fiquei muito impressionada com esse resultado. Não é possível ler o comportamento da população brasileira como se fosse natural. A adesão às medidas quarentenárias foi alta no início da pandemia, quando Mandetta ainda era ministro. Não é um comportamento natural, mas influenciado por uma propaganda oficial intensa de negacionismo da gravidade da doença”, afirma Deisy Ventura. “Existe um envolvimento pessoal do presidente na incitação. Esse comportamento do ponto de vista da comunicação elimina as estratégias dos governos locais, desacredita as autoridades sanitárias”.

Margareth Dalcolmo vê uma contradição em apontar a população como a principal responsável.

“Quando jovens de classe média, ou seja, para os quais não podemos atribuir um problema de educação precária, que têm acesso a jornais e a informação de qualidade, o que leva essas pessoas a se comportarem de forma tão irresponsável coletivamente?”, indaga. “Esse dado guarda uma contradição. Se a população negou e se vê como responsável, a reflexão servirá para uma consciência coletiva? Houve um conluio que foi estimulado pela desinformação e confusão do discurso oficial. Não é só o presidente. Muitas autoridades se sentiram autorizadas, a exemplo de prefeitos”.

Eleições municipais

O levantamento do Ibope também mostra que três em cada cinco brasileiros acreditam que a pandemia trará impactos nas eleições municipais, que ocorrerão em novembro. Para Maria Amélia, essa influência já começou e está a todo vapor, mas, segundo ela, não na direção correta.

“Vemos que em várias cidades do Brasil, a despeito da epidemia não estar controlada e de não haver sequer testes suficientes para a população, os prefeitos começam a relaxar as medidas de distanciamento, quase não falam da Covid-19 e tentam uma volta à normalidade imediata”, diz a epidemiologista. “Há também prefeitos que oferecem kits de medicamentos sem nenhuma eficácia para tratamento ou prevenção. É possível até que aqueles que estão fazendo o que deveria ser feito, que em alguns momentos envolve medidas impopulares, sejam até penalizados”.

Deisy Ventura avalia que a disputa municipal traz contornos peculiares, dada a própria função dos prefeitos e o papel desempenhado por eles na pandemia.

“É uma enorme interrogação. A saúde de uma população é determinada por diversas esferas, mas quando se trata principalmente de uma epidemia, ela acontece na cidade. Foram muito menos numerosos os prefeitos negacionistas. Tivemos todas as contradições possíveis, inclusive prefeitos da base de apoio do presidente adotando medidas preventivas. Essa tangibilidade local da saúde pode explicar o que parece ser uma contradição”, diz a professora da USP.

Mais números da pesquisa Ibope:

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